17 de dez de 2013

Entrevista de Junior para a Revista Status

Um dos músicos mais famosos do Brasil, ele fala das angústias de ser uma celebridade, do prazer em fazer supermercado e da fama de gay que o persegue. 

por: Piti Vieira
foto: João Castellano 


O campineiro Durval de Lima Junior, 29 anos, faz música desde 1989, quando tinha 5 anos de idade. Irmão de Sandy e filho de Xororó, ele já tocou com artistas que vão de Caetano Veloso e Milton Nascimento a Andreas Kisser e Seu Jorge. Em dupla com a irmã, lançou 15 discos (sem contar as 23 coletâneas) que, juntos, venderam mais de 15 milhões de cópias. Trata-se de um dos nomes de maior sucesso no mercado fonográfico brasileiro. Para efeito de comparação, Fábio Júnior, que tem o dobro de álbuns lançados, precisou de 35 anos para vender quantidade semelhante.

Juninho, como é chamado pelo pai, já fez de tudo um pouco. Protagonizou um seriado na Rede Globo, participou de filmes e foi diretor musical numa peça de teatro. Atualmente, está em uma fase completamente diferente de sua carreira. Depois de colocar um fim à dupla Sandy & Junior, em 2007, e participar de duas bandas, Soul Funk e Nove Mil Anjos, onde tocava bateria, o atual projeto do músico é o grupo Dexterz, de música eletrônica, composto também por Julio Torres e Amon Lima. O trio, que foi uma das atrações do palco eletrônico do último Rock in Rio, viaja o Brasil todo para tocar em festivais e clubs até para mil pessoas. “Pequeno para o que estou acostumado”, diz ele, que em 2002, quando ainda se apresentava com a irmã, chegou a levar nada menos que 70 mil pessoas ao Maracanã tornando-se os primeiros artistas brasileiros a fazer show solo no maior estádio do Brasil. A multidão se compara ao número que compareceu para assistir à apresentação do U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo, em 2006.

Aos 5 anos, com a irmã, Sandy

O músico, que atualmente é noivo da modelo Mônica Benini, recebeu a Status em seu apartamento em São Paulo, no bairro dos Jardins, para onde se mudou em 2008. Em uma conversa descontraída, Junior falou sobre música eletrônica e sertaneja, da paixão pela fotografia, do único arrependimento em 23 anos de carreira, da mania de desvalorizar as coisas que faz e da fama de gay que o persegue.

Qual é a diferença entre fazer música eletrônica, rock e pop?
– Em cada gênero estive representando um papel diferente como músico. No pop eu era vocalista. No rock, baterista. Então, é difícil comparar. Dentro da música eletrônica eu acabo tocando uma coisa mais próxima da percussão. Mas uma diferença básica é que hoje não precisamos ensaiar. Como a base (programada eletronicamente) já está pronta e vamos tocar em cima disso, não demanda tanta energia (como é a) de coordenar uma banda para todos soarem como uma unidade.

– O que você tem ouvido de música eletrônica?
– O último disco em que fiquei bastante vidrado foi o do Daft Punk (Random access memories). Gosto muito de Soulwax, que faz um gênero mais pesado, bem diferente do que a gente toca, que é mais house. Os franceses SebastiAn, Breakbot, Sébastien Léger, os ingleses Nic Fanciulli e Bonobo, uma galera do deep house, enfim, muita gente.

Com a banda Dexterz

– Você sabe discotecar?
– Me viro. Tenho uma coleção de vinis, que comecei faz dois anos. Devo ter quase uns 300 discos, variados.

– Que tipo de música você gosta de escutar no dia a dia?
– Depende do meu estado de espírito. Ultimamente foquei na música eletrônica ou em músicas que tenham influência do gênero, porque é o som que tenho feito. Mas também gosto de rock e funk dos anos 70.

– Sertanejo não?
– Não (risos). O único que consome sertanejo na minha família é o meu pai.

– O que você acha da música sertaneja feita hoje no Brasil?
– O que sei dos sertanejos eu acabo recebendo pelo meu pai e pela minha mãe. Ou então pela tevê, quando assisto a algum canal aberto. Do que eu vi, algumas coisas são até legais, mas tem muita coisa misturada, que começou a dar certo e tem muita gente tentando fazer igual. O número de duplas é tanto que eu nem consigo mais decorar os nomes. Então, nessa fase é normal que haja muita coisa de baixa qualidade. A gente até brinca que o melhor “warm up” que tem é de sertanejo (risos), porque a pista fica fresca e a hora que entra a batida da música eletrônica costuma bombar bastante.

– E como foi sua aceitação pelo público da música eletrônica?
– Quatro anos atrás, quando comecei a tocar nesse projeto, achava que fosse ser difícil. Mas não. Fui muito mais aceito pelo público da música eletrônica do que pelo do rock. Na época do Nove Mil Anjos eu tinha que me esforçar o triplo para conseguir provar o meu valor como baterista.

– É estranho não estar mais na linha de frente?
– É confortável (risos). Eu prefiro, porque é uma exposição grande quando se atinge o ponto a que eu e minha irmã chegamos. Ter a oportunidade de dar esse passo atrás e continuar vivendo de música, fazendo um monte de shows, foi a melhor coisa que podia ter acontecido.

– Como é o seu dia a dia? É fácil para você sair na rua?
– Hoje em dia é bem mais tranquilo. As pessoas ainda me abordam, mas é uma abordagem mais tranquila, eu consigo caminhar sem ter de ficar parando a cada passo que dou.

– Mas você consegue ir ao supermercado, por exemplo?
– Vou. Mas olha que bizarro: eu sentia falta de fazer supermercado. Eu tinha uma vida maluca, irreal. Hoje em dia sou bem menos refém do meu nome. Vivo mais à vontade.

– Você sempre quis ser músico?
– Sempre. Quando tinha 3 anos ia ao show do meu pai e grudava no baterista. E eu tinha ritmo. Ficava do lado dele, durante os shows, atrapalhando. Filho do cantor, né? Ele devia odiar (risos). Até que ele me deu um par de baquetas. Aí eu comecei a tocar em tudo quanto era objeto em casa e acabei quebrando umas coisas. Para evitar mais prejuízos, meu pai mandou fazer uma bateria pequena para mim. Na época, não tinha para comprar. Passou um tempo e eu fui abandonando a bateria, porque comecei a perceber que fazia muito barulho e não queria atrapalhar. E fui para o violão.

– Nunca pensou em seguir outra carreira?
– Atualmente, tenho uma paixão quase equivalente, que é a fotografia. Gosto de fotografar coisas cotidianas, enxergar beleza onde as pessoas geralmente não enxergam. No ano que vem tenho a intenção de fazer uma exposição. Minha noiva é modelo e também é apaixonada por fotografia, inclusive foi uma das coisas que aproximaram a gente. Foi nosso primeiro elo.

– Como lida com as críticas?
– Você aprende a ponderar. E é bom. A gente evolui através das críticas. Mas teve uma fase em que eu ignorava tudo. As pessoas te tratam como se você fosse um objeto, se sentem no direito de ficar apontando coisas e julgando. Com a mídia é a mesma coisa. E 90% das vezes julgam boatos. Chegou uma hora em que comecei a ficar calejado. Sei que vai passar.

– Isso piorou com a internet?
– Ficou mais amargo. As pessoas têm muita facilidade de odiar hoje em dia. Por qualquer motivo. E não dá para xingar de volta. As consequências são muito maiores. Às vezes eu adoraria poder fazer isso também. Tenho uma conta no Twitter, mas parei de usar, porque tudo o que colocava lá era interpretado errado. Hoje meu Twitter é quase uma extensão do meu Instagram. Mas eu não gosto de redes sociais. O Instagram me pegou por causa da fotografia. Tanto que meu perfil é mais foto conceitual.

– Você faz terapia?
– Há bastante tempo. É fundamental. Ainda mais tendo a vida que tive. Se eu não fizesse terapia, acho que ia ser maluco. Eu sou uma pessoa que gosta muito de olhar para dentro.

– Você deve ter crescido com muita gente o bajulando. Como foi o processo de saber quem realmente gostava de você e quem só estava interessado em alguma coisa?
– Ainda acontece. Tem muita gente que é boa em ocultar as verdadeiras intenções. Quando era moleque, foi difícil enfrentar isso. Tive muitas decepções. Já me disseram que eu deveria chegar desconfiando e a pessoa ir ganhando minha confiança aos poucos. Mas não consigo viver assim. Prefiro dar o crédito antes. Sou muito de sentir as pessoas e me considero uma pessoa sensível nesse sentido. Tem gente com quem, de cara, eu me sinto bem e troco ideia e tem gente que não me desce, mesmo sem me dar motivo. É difícil eu errar nesse ponto. A energia para mim é uma coisa importante.

– Quem você procura quando precisa de um conselho?
– Quando a coisa está séria, a minha terapeuta (risos). Mas também minha noiva, meus pais. A família nessas horas é importante. São as pessoas em que mais confio.

– Já teve que brigar com seu ego para não se sentir mais do que deveria?
– Ao contrário. Brigo constantemente com meu ego para não me sentir por baixo. O que é engraçado, porque eu tinha tudo para ter um ego inflado. Quando era moleque, todas as vezes em que eu tinha uma postura um pouquinho mais superior, em qualquer sentido, minha mãe me dava um come: “Moleque, você está se achando melhor que alguém? Por que você tratou fulano dessa forma?”. Aquilo ficava ecoando na minha cabeça. Tenho mania de desvalorizar as coisas que faço e que construí, e valorizar mais os outros do que a mim. Isso é uma coisa que nunca falei em entrevista. Teve uma hora em que percebi que minha carreira era o pilar central da minha vida. E isso estava errado. Quando tirei o Junior Lima desse papel principal, comecei a me sentir completamente vazio. Aí, fui atrás de me preencher de outras formas. Cresci tão observado, com a necessidade de agradar, de ser legal, de ser querido, de ser bonzinho, que tive de eliminar isso. Não quero mais saber a impressão das pessoas a meu respeito.

– Você gosta de ser uma celebridade?
– Reconheço que tem vantagens, mas preferia não ser. Eu trampo com música, me dou o direito de fazer só o que gosto e não trabalho para me sustentar, mas por amor à arte. Aos 29 anos você pode dizer: isso é do caralho. Mas, no geral, eu não gosto. Para mim, eu sou muito mais músico do que celebridade. Aí, a celebridade ganha uma proporção que me incomoda.

– O que o incomoda mais?
– A falta de privacidade, a sensação de estar sendo sempre observado e julgado. Não tenho direito de usar um boné ou óculos escuros que já estou disfarçado. Porra, eu uso grau.

– Você fica procurando para ver se tem paparazzi por perto?
– Acabo vivendo numa certa paranoia. Acontece tanto de eu estar em um restaurante e notar alguma pessoa próxima com o celular apontado para mim que me pego direto olhando tudo à minha volta. É um exercício constante de superação.

– Quando você colocou a mão no seu dinheiro pela primeira vez?
– Eu não tinha a liberdade de usar quando quisesse, mas sempre foi meu. Com 7 anos eu já fazia shows. Lembro de uma época, no meu colégio, em que todo mundo tinha mesada e eu queria me sentir igual aos meus amigos. Pedi para o meu pai e ele começou a me dar uma grana, não lembro o valor. E eu não gastava. No segundo mês já falei para ele desencanar. Quando queria uma coisa, eu pedia. Mas nunca fui muito consumista. Meus pais falavam que eu devia guardar meu dinheiro, mas que também não podia guardar demais para não virar pão-duro. Minha primeira compra mais cara foi meu primeiro carro (uma BMW esportiva modelo X5), aos 18 anos.

– Você estudou até qual ano?
– Até o colegial. Não fiz faculdade.

– Você frequentava a escola normalmente?
– Sim, o único privilégio que eu tinha no colégio, por ser artista e trabalhar, era não ter limite para faltas. Tinha que fazer todos os trabalhos, todas as provas. Os professores até pegavam no meu pé para provar que não tinha proteção. Mas quem mais deixava o freio de mão puxado para não perder aula era a minha irmã. Ela defendia com unhas e dentes o colégio. Eu queria trampar. Vamos aí, foda-se o colégio. Quando cheguei ao terceiro colegial, ela já tinha se formado e estava disponível para ir a todo vapor. Eu não ia prestar vestibular e todo mundo no colégio estava voltado para isso. Na minha cabeça aquilo não fazia o menor sentido e eu só tinha que cumprir tabela. Eu já sabia o que queria ser, já tinha a minha carreira. Hoje eu sinto falta de muita coisa daquela época.

– Você gostava de estudar?
– (Silêncio). Gostava de estudar bateria, guitarra (risos)…

– Com o que você mais gasta dinheiro?
– Talvez com o meu carro, que precisa ser legal para não sofrer com a blindagem. Eu me dei um padrão de vida confortável, estou mudando para um apartamento maior porque eu sinto falta de ter um estúdio em casa. Meus gastos são minhas necessidades, eu não gosto de ostentação. Não é assim que enxergo o mundo. Gosto de viajar. Em viagem eu não economizo muito. Acabei de passar um mês em Los Angeles. Aluguei um apê gostoso, na beira da praia.

– Não gasta em roupa?
– Gasto porque preciso. Têm os shows, programas de tevê, e aí não dá para ficar indo sempre com a mesma roupa.

– Você se acha vaidoso?
– Não sou um cara que fica se olhando no espelho.

– Pratica algum esporte?
– Jiu-jítsu. Sou faixa roxa.

– Você se acha bonito?
– Me acho numa média boa. Não faço feio.

– Se arrepende de algo que tenha feito na sua carreira?
– O único arrependimento em 23 anos de carreira foi a merda da foto que fiz com uns miojos. Fico pensando por que não falei não. Eu fiz um ensaio uma vez para uma revista teen. Na época, eu era adolescente. E não sabia falar não. Eu era um moleque bonzinho que falava sim para tudo. O ensaio era sobre os sete pecados capitais. Uma foto para cada pecado. No da gula eles resolveram que eu deveria entrar em uma banheira cheia de macarrão e fazer uma cara de que o macarrão estava uma delícia. Só que não tinha banheira nem macarrão. Eles pegaram uma banheira de bebê e encheram de miojo. Fiquei com as pernas peludas para fora. Devia estar com 15, 16 anos. Um negócio escroto, nojento. Passou-se muito tempo, naquela época mal tinha internet, e alguém jogou aquela foto na rede. Desde que isso reapareceu eu falei muito sobre essa história nas redes sociais, mas vira e mexe algum desavisado tromba com a imagem e vem me perguntar o que é aquilo. Tomara que meus filhos não vejam essa foto.

– Quais são seus planos para o futuro?
– Quero casar, mais para a frente ter os meus filhos. Minha carreira artística virou um prazer. Meu foco hoje é pela minha realização pessoal.

– O que mais o encantou na sua noiva?
– A alma artística. Ela é designer de acessórios e joias. Ama fotografia e música. A gente é muito parecido. Rolou uma conexão muito forte.

– Você não teve muitas namoradas famosas. Prefere as anônimas?
– Naturalmente já tenho preferência pelas anônimas, pessoas que me deram o outro lado, que me apresentaram um mundo mais palpável.

– O que pensa sobre o casamento?
– Eu não acreditava. Isso porque venho de uma família em que o casamento é super sólido. Mas sei que eles são exceção. Pena, porque é uma coisa que todos deveriam ter, de encontrar uma pessoa que acrescente, de descobrir no casamento uma parceria.

– O que é mais difícil numa relação entre um homem e uma mulher?
– A convivência. Quando se perde o respeito e a confiança, perde-se a relação. Tem muito homem achando que é moleque, querendo fazer balada e pegar a mulherada. Porra, mano, sério que até hoje esse é seu esporte? Passa para outra. Não dê tanta importância para isso. Existe uma supervalorização dessa coisa de pegar mulher.

O músico com a família e a noiva

– Você acha difícil ser fiel?
– Não. Nos meus outros namoros, por mais que eu não estivesse com a mulher da minha vida, enquanto estava namorando, sempre tentei fazer direito. Sempre fui sério. Aprendi isso dentro da minha casa e tento seguir à risca, porque sei que é a fórmula que dá certo. É preciso abrir mão de certas coisas para ter outras. Não adianta você mentir para a sua mulher e achar que a sua relação é de verdade.

– Essa história de as pessoas ficarem questionando a sua sexualidade, como começou?
– A primeira vez que ouvi alguém dizer que eu era gay foi quando dei uma entrevista e a repórter me perguntou se eu era virgem. Eu disse que não era mais, fiquei todo contente em dizer isso. Aí vieram me contar que na redação da revista, quando leram isso, um cara disse: “Mas ele não é viado?”. Foi quando percebi que tinha essa fama. Adolescente, você ser chamado pelo País de gay, por mais que você não tenha preconceito, me incomodou muito. Porque eu não sou. Na época, eu estava craque em me anestesiar sobre algumas coisas e fingi que não vi. Fui deixando adormecido aquilo. Até um dia que não deu mais. Foi quando dei aquela xingada no Twitter e piorou tudo (em 2009, ele escreveu no microblog: “Depois de tanto tempo voltei a escutar nego me chamando de gay por aí… quero deixar claro q não sou preconceituoso, mas VÃO A M…!!!”). Teve um tempo em que isso até me ajudava a pegar mulher. Elas ficavam curiosas e eu ia lá e pá! Já me conformei em ter que conviver com isso por muitos anos. Talvez quando eu casar e tiver filhos pare uns 90% (risos).

– Você acha o brasileiro muito machista?
– Acho o mundo muito machista. E tem muita mulher que também se coloca nessa condição.

– É a favor do casamento gay?
– Sou a favor. É burro esse tipo de preconceito. Já deu para entender que as pessoas são diferentes umas das outras. Todo mundo tem direitos iguais.

 Fonte: Revista Status

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